O
governo divulgou na semana passada o resultado do Ideb, que avalia o
ensino fundamental e médio. Comentei o desastre aqui em alguns posts. O
ministro da Educação, Aloizio Mercadante, no entanto, comemorou.
Compreendo.
A
presidente Dilma Rousseff, como sabem, está prestes a endossar uma lei
verdadeiramente criminosa aprovada pelo Congresso: a reserva de 50% das
vagas das universidades federais para alunos egressos da escola pública,
segundo a cor da pele dos estudantes. Pesquisa recente demonstra que
nada menos de 4% dos universitários brasileiros são semialfabetizados, e
escandalosos 38% não são plenamente alfabetizados. É a tragédia da
escola pública fundamental e média se alastrando célere no terceiro
grau. Sancionada a lei — Dilma e Mercadante a aprovam —, a universidade
pública estará condenada a funcionar como curso supletivo, destinado a
suprir as deficiências do ensino nas etapas anteriores. Pior: diminuirá
enormemente a pressão em favor da melhoria da escola pública.
Muito bem!
As Páginas Amarelas de VEJA desta semana trazem uma entrevista com João
Batista Araújo de Oliveira, especialista em educação que põe os pontos
no “is”. Voltarei a este assunto (espero que Ricardo Lewandowski e Marco
Aurélio de Mello não abusem excessivamente da nossa paciência) para
discutir por que, afinal de contas, o Brasil tem feito tudo errado nessa
área. Destaco algumas frases de Oliveira:
Qualidade do professor:
“Desde a década de 60 há um rebaixamento do nível do pessoal, e a qualidade do ensino depende essencialmente do professor.”
Palavrório pedagógico
“As escolas têm um punhado de papéis
reunidos sob o nome de ‘proposta político-pedagógica’, seja lá o que
isso queira dizer: começa com uma frase do Paulo Freire e termina
citando Rubem Alves.”
Programa de ensino
“É preciso ter um programa de ensino: afinal, se você não sabe o que ensinar, como vai saber o que avaliar?”
Premiar e punir
“É preciso premiar quem faz direito e
punir quem não faz. Hoje, o único punido no sistema de ensino brasileiro
é o aluno reprovado. Isso é covardia.”
Pedagogos demais, gestores de menos
“O problema é que as escolas e as secretarias de Educação estão povoadas de pedagogos, e não de gestores.”
Idiotia deslumbrada
“Porque no Brasil o que importa é
acessório. O legal é colocar xadrez na escola, é ensinar teatro. O
brasileiro vai à Finlândia e acha que o sucesso da educação daquele país
se deve ao fato de que as paredes das escolas são pintadas de rosa.”
Enem
“Ficamos com esse troço que ninguém sabe o que é. O Enem não tem a menor importância.”
Tablets nas escolas
“Nenhum país conseguiu melhorar a educação a partir do uso da
tecnologia. (…) Não adianta colocar ingredientes certos na receita
errada.”
Verba para educação
“Desde 1995, o salário do professor
quintuplicou no Brasil, mas não houve avanço no desempenho do ensino.
Então, aumentar uma variável só não vai mexer no resultado.”
Educação em 2021
“Estaremos no mesmo patamar. Não há nenhuma razão para pensar que será diferente.”
Leiam trechos da entrevista. A íntegra está na revista. Por Nathalia Goulart:
Há décadas governos estaduais,
municipais e federal se vangloriam de suas escolas-modelo, unidades que
recebem toda a atenção da administração de plantão e que, por isso, se
destacam dos demais colégios públicos pela excelência. Os governantes
deveriam, na verdade, se envergonhar da situação, afirma o educador João
Batista Araújo e Oliveira, presidente do Instituto Alfa e Beto, ONG
dedicada à educação. O argumento do especialista é simples: “As
escolas-modelo são exceções. A regra, como sabemos, são as demais
escolas do Brasil”. Para incentivar governos a corrigir a distorção.
Oliveira criou, em parceria com a Gávea Investimentos e a Fundação
Lemann, o Prêmio Prefeito Nota 10, que vai dar 200 mil reais a
administradores municipais cuja rede de ensino fundamental obtenha a
melhor avaliação na Prova Brasil, exame federal que mede a qualidade do
ensino público no ciclo básico. Escola-modelo, portanto, não conta. “Não
adianta o prefeito falar que tem duas escolas excepcionais se as demais
não acompanham esse nível. Queremos premiar o conjunto.” Confira a
seguir a entrevista que ele concedeu a VEJA.
O
MEC divulgou nesta semana os resultados da Prova Brasil, que mostra o
nível de aprendizado das crianças no ciclo fundamental das escolas
públicas. Como o senhor avalia os resultados?
Eles foram divulgados com grande fanfarra, mas não há nenhuma
justificativa para isso. Se você analisa a questão no tempo, percebe que
existe estagnação. Há um ponto fora da curva, os resultados divulgados
em 2010. Mas eles não foram corroborados neste novo exame, e já
esperávamos isso. Estamos onde estávamos em 1995. Há uma melhora bem
pequena nos anos iniciais da escola, e pouquíssima variação nas séries
finais e no ensino médio. Os gastos em educação aumentaram — e muito — e
foram criados muitos programas, mas isso não tem consistência
suficiente para melhorar a qualidade do ensino. Então, temos duas
hipóteses para a estagnação: ou os programas criados são bons, mas não
foram bem executados, ou são desnecessários e não trouxeram benefício
algum.
Especialistas,
entre os quais o senhor, pregam que uma reforma educacional eficaz se
faz com receitas consagradas — ou seja, sem invencionices. Quais são os
ingredientes para o avanço?
O primeiro é uma política para atrair pessoas de bom nível ao
magistério. Desde a década de 60 há um rebaixamento do nível do pessoal,
e a qualidade do ensino depende essencialmente do professor. O segundo
ingrediente é a gestão do sistema. Uma boa gestão produz equidade: todas
as escolas de uma mesma rede funcionam segundo o mesmo padrão. Hoje,
unidades de uma mesma rede estadual ou municipal apresentam desempenhos
díspares. O terceiro é a existência de um programa de ensino
estruturado, que falta ao Brasil. As escolas têm um punhado de papéis
reunidos sob o nome de “proposta político-pedagógica”, seja lá o que
isso queira dizer: começa com uma frase do Paulo Freire e termina
citando Rubem Alves. Os governos de todos os níveis abriram mão de
manter uma proposta de ensino, detalhando o que os alunos devem aprender
em cada série. O quarto ingrediente é um sistema de avaliação que possa
medir a evolução do aprendizado. Para isso, porém, é preciso ter um
programa de ensino: afinal, se você não sabe o que ensinar, como vai
saber o que avaliar? De posse de bons profissionais, gestão, programa de
ensino e métodos de avaliação, acrescenta-se o último ingrediente, um
sistema de premiação e punição. Algumas redes começam a pensar em um
sistema de premiação, mas não adianta só dar incentivo. É preciso
premiar quem faz direito e punir quem não faz. Hoje, o único punido no
sistema de ensino brasileiro é o aluno reprovado. Isso é covardia. Nada
acontece com professor, diretor, secretário de Educação, prefeito ou
governador quando eles falham.
(…)
Por que é tão difícil levar a qualidade das escolas-modelo para toda a rede de ensino?
Porque no Brasil o que importa é acessório. O legal é colocar
xadrez na escola, é ensinar teatro. O brasileiro vai à Finlândia e acha
que o sucesso da educação daquele país se deve ao fato de que as paredes
das escolas são pintadas de rosa. Na volta ao Brasil, ele quer pintar
todas as escolas daquela cor. Depois, ele vai à Franca, onde vê um livro
que julga importante e decide introduzi-lo nas escolas daqui… Em vez de
olharmos o que os sistemas de ensino daqueles países têm em comum,
olhamos exatamente para o que há de diferente neles, como se isso fosse a
bala de prata da educação. Por isso gestão é tão importante: é preciso
focar o DNA da escola e deixar de lado o que é periférico. O problema é
que as escolas e as secretarias de Educação estão povoadas de pedagogos,
e não de gestores. Não conheço uma Secretaria de Educação no Brasil que
tenha um especialista em demografia, que saiba quantas crianças vão
nascer nos próximos anos e, portanto, quantas escolas precisam ser
abertas ou fechadas.
Há alguns meses, o MEC anunciou a aquisição de milhares de tablets para professores. O senhor vê isso com bons olhos?
É mais confete. O bom professor vai se beneficiar; o mau, não. E
nem o benefício ao bom professor justifica o custo. Quando a tecnologia
está atrelada ao professor, ele, o ser humano, vai ser sempre o fator
limitante. Nenhum país conseguiu melhorar a educação a partir do uso da
tecnologia. Não estou dizendo que a tecnologia seja ruim. Ela tem
potencial, desde que seja usada no contexto apropriado. Não adianta
colocar ingredientes certos na receita errada.
A sensação generalizada é que o ensino público nacional é um desastre. É uma visão errada?
É uma visão correta. Sobretudo para as crianças pobres, que
teriam na escola a única chance de ascensão social. A escola é um
desastre quando analisada pela ótica das avaliações internacionais, e um
desastre também do ponto de vista pessoal, individual. A única chance
que um cidadão tem de melhorar de vida no Brasil é’ por meio da educação
de qualidade. E ela não tem qualidade para a maioria das pessoas. O
número de jovens que chegam ao ensino médio é baixíssimo, e, entre
estes, a evasão é uma calamidade. E o governo é incapaz de entender que
há um modelo errado ali, que penaliza jovens justamente quando eles
atravessam uma fase de afirmação.
O
Enem foi criado como ferramenta de avaliação e aprimoramento do ensino
médio. Porém, vem sofrendo mudanças para atender a outro fim: a seleção
de estudantes para universidades públicas. Qual a avaliação do senhor a
respeito?
Ninguém consegue servir a dois senhores. O
Enem nasceu com um formato, mas transformou-se em outra coisa. Ele
nasceu para ser uma prova de avaliação das competências dos jovens, mas
não deu certo. Em seguida, tentou-se vender a ideia de que é uma prova
seletiva, um vestibular barato. E ficamos com esse troço que ninguém
sabe o que é. O Enem não tem a menor importância. A ideia de ter uma
forma simplificada de ingresso à universidade é bem-vinda, mas isso não
serve para todos os estudantes do ensino médio.
(…)
Tramita no Congresso o Plano Nacional de Educação, que prevê aumentar o porcentual do PIB destinado à área de 5% para 10%. A falta de dinheiro é a razão de crianças não saberem ler ou operar conceitos fundamentais de matemática?
O país deve investir em educação, mas colocar dinheiro na
equação atual é jogá-lo fora. O problema mais importante é a gestão.
Não adianta pôr mais dinheiro no sistema atual porque ele vai ser
malgasto. É como pagar dois professores que não sabem ensinar: melhor é
pagar somente um bom mestre. Temos problemas estruturais muito graves:
se eles não forem resolvidos, não haverá financiamento que baste. Desde
1995, o salário do professor quintuplicou no Brasil, mas não houve
avanço no desempenho do ensino. Então, aumentar uma variável só não vai
mexer no resultado. A equação é mais complexa. Além disso, 10% é uma
cifra descabida do ponto de vista da macroeconomia.
O país estabeleceu metas para o ensino básico até 2021. Como estará o Brasil, do ponto de vista da educação, às vésperas do bicentenário da Independência?
Estaremos no mesmo patamar. Não há nenhuma razão para pensar
que será diferente. Não se muda a educação, estabelecendo metas, mas a
partir de instituições. Não há milagre. Uma vez que não existe
investimento nas políticas corretas, não há por que achar que teremos
uma situação melhor no futuro.