quarta-feira, 5 de setembro de 2012

A lamentável despolitização da política



 

    por  Mário Augusto Jakobskind

A despolitização da política é uma das marcas desta campanha eleitoral para a escolha de prefeitos e vereadores nos 5.556 municípios brasileiros.
No Rio de Janeiro, cidade que mais resistiu à ditadura, o panorama é constrangedor, para não dizer vergonhoso. Basta ver a propaganda eleitoral pela televisão para constatar o baixo nível com pleiteantes aparecendo até com nariz de palhaço, em uma tentativa grotesca de repetir o fenômeno paulista do parlamentar federal mais votado do país, o Tiririca.
É preciso analisar o motivo pelo qual a política brasileira e mesmo mundial decaiu com o surgimento de figuras como Silvio Berlusconi, Mario Monti, Angela Merkel e por aqui Geraldo Alckmin, Sergio Cabral, Eduardo Paes, entre outros. São produtos do mercado e com discursos enganadores e muito apoio de grupos empresariais dos mais variados conseguem iludir até gente bem intencionada.
A decadência da política partidária tem também como parcela de culpa os próprios meios de comunicação que fazem o possível e o impossível para evitar debates permanentes e não apenas de candidatos a postos executivos com regras absurdas visando impedir o confronto de ideias.
Os grandes temas são escamoteados e quando surge algum tipo de confronto aparecem os colunistas de sempre com críticas do gênero senso comum objetivando evitar o aguçamento do espírito crítico da cidadania.
A continuar assim, as próximas eleições poderão ser ainda mais mornas do que a atual e sem que o eleitor possa conhecer de fundo o verdadeiro ideário dos candidatos, sobretudo daqueles que prometem mundos e fundos, mas quando eleitos fazem exatamente o contrário das promessas.
Há casos notórios de candidatos vinculados a grupos econômicos dos mais variados, no caso do Rio de Janeiro, o mais forte deles o da especulação imobiliária, o mesmo setor que descaracterizou a arquitetura da cidade com a permissão concedida por prefeitos, nomeados ou eleitos, da quebra de gabarito dos prédios.
Os mais velhos lembram que na época da ditadura, grupos como o de Sérgio Dourado se fizeram com a ajuda de prefeitos como Marcos Tamoio, por exemplo.
Naquele período, por total falta de liberdade, era até arriscado contestar tal estado de coisas. E isso no Rio de Janeiro, que dirá em outros municípios afastados dos grandes centros.
Esperava-se que com a abertura, mesmo acordada de forma a evitar eventuais confrontos, o processo de conluio entre representantes do mundo político e o poder econômico fosse pelo menos reduzido.
Não aconteceu. A única diferença é que agora, ao contrário da época da ditadura, pode-se denunciar picaretagens, como fazem alguns veículos midiáticos, mas em geral desde que não afetem setores econômicos vinculados aos proprietários.
Mas com o advento e o fortalecimento da internet, muitas vezes o que a mídia de mercado tenta esconder é divulgado e de forma a provocar impacto.
Ainda no Rio de Janeiro, tal raciocínio se confirma em fatos concretos, como no caso das tentativas da Prefeitura do Rio de Janeiro em remover mais de 500 famílias na área do Autódromo, na Barra da Tijuca.
A turma do Prefeito Eduardo Paes tentou em um primeiro momento remover os moradores sob a alegação de que poderiam representar perigo para os atletas que participarão das Olimpíadas de 2016. Mentira, a Vila Autódromo é um dos poucos bairros populares do Rio de Janeiro onde não atuam as milícias ou os narcotraficantes.
Não satisfeito com a mentira que circulou algum tempo pela mídia de mercado, como em função da mobilização dos moradores e dos movimentos sociais a Prefeitura perdeu a parada, novas tentativas de remoção ocorreram.
A alegação posterior, que também caiu por terra, era de que a ocupação provocaria danos à lagoa de Jacarepaguá. Provou-se que o argumento servia apenas de pretexto para a remoção.
Além do mais, os moradores da Vila Autódromo estão lá legalmente e durante décadas se organizaram visando a urbanização do bairro. Tanto assim que o projeto vencedor de concurso internacional Parque Olímpico manteve os moradores no local.
Mas a Prefeitura não se deu por vencida. O argumento atual é de que será necessário remover cerca de três mil habitantes do local para dar passagem a Transcarioca. Pergunta-se então, por que o projeto não pode ser deslocado para outra área e com isso manter o local como está, inclusive com as melhorias já feitas levando em conta a preservação do meio ambiente e tudo mais.
Para matar a charada que confirma o conluio entre a Prefeitura e setores imobiliários é necessário divulgar o que é escondido pela mídia de mercado carioca.
Segundo denúncias, Paes quer legitimar a remoção e entregar a área de 1,18 milhões de m2 para o consórcio privado Odebrecht-Andrade Gutierres-Carvalho Hosken, sendo que pelo menos 5% seriam destinados à construção de condomínios de alta renda.
Agora, na antevéspera da eleição, a Prefeitura carioca prometeu dar um parecer sobre plano de urbanização desenvolvido pela comunidade em parceria com especialistas do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano  e Regional (Ippur) da UFRJ e do Núcleo de Estudos e Projetos Habitacionais e Urbanos )(NEPHU) da UFF.
E assim caminha o Rio de Janeiro em plena campanha municipal. Na campanha que aparece na televisão, Paes e outros como Rodrigo Maia e Otavio Leite preferem evitar essa informação. Até porque, basta verificar quem financia a campanha dos referidos candidatos.
E os grupos imobiliários, claro, não pregam prego sem estopa. Financiam campanhas sim, mas vão querer de volta favores a serem concedidos.
Ou vocês acham que a investida contra a comunidade da Vila Autódromo por parte do Prefeito Eduardo Paes visa o bem estar da população?

Nenhum comentário:

Postar um comentário